sábado, 11 de abril de 2009

Uma surpresa portuguesa

Tem horas que penso em desistir de manter esse blog... Afinal, são tantas as demandas. Às vezes, como no atual momento, não consigo nem mesmo dar conta das minhas obrigações e fico cansada só de pensar em tudo o que tenho pra fazer (e cada vez arranjo mais coisas...).

No entanto, algo sempre acontece para me mostrar que esses espaço aqui é muito importante, é como uma porta aberta pro mundo... E sabem quem acabou entrando? Uma jovem portuguesa, a Verônica, de 17 anos, que me trouxe palavras de incentivo e de muito carinho.

Tal qual na época das navegações portuguesas, atravessei os mares e fui parar numa pequena aldeia para encontrar com a Verônica. Ela é linda e quero apresentá-la aqui no meu blog, para repartir com todos essa simpática portuguesinha.

Com a autorização dela, reproduzo o e-mail que ela me mandou, assim como sua foto. Reparem na linda poesia que ela compôs pra mim...


A senhora gostava de saber como é que eu econtrei o seu blog, pois eu digo-lhe que tive muita sorte; Eu estava a procura de informações sobre nanismo, para ver se era isso que uma vizinha minha tinha, fui pesquisando e aprofundando a pesquisa, até que por uma questão de muita sorte como já referi anteriormente, encontrei o seu blog, por curiosidade li e gostei bastante, daí, decidi procurar mais coisas acerca do blog e da autora , porque,... não sei bem explicar, mas havia ali, naquele seu blog palavras e frases que mexeram com o meu interior, e posso lhe dizer que delícia é saber que existe alguém no planeta tão querida, com palavras tão quentes como a senhora.

Este poema que aqui vem, é o "significado" do que me levou a ler o seu blog:

"A voz do silêncio chamou-me,

E sem eu perguntar o que queria,

Ele respondeu-me:

- Atira-te ao mar,

Vai salvar o que sentes ,

Vai desabafar o que te agoneia,

E se o teu amor são as pessoas,

Principalmente aquelas que sem saberes porquê bateram na moradia do teu sentir,

Abre-lhes a porta, Deixa-as entrar,

Para AMIZADE poderem juntas pactuar.

E eu comentei:

-Tens razão,

Sabes, eu não vivo só para mim, mas principalmente para os outros,

Eu não vivo no conhecimento, mas para conhecer,

Eu não vivo só para ter a opinião, mas também para a partilhar,

Eu não escrevo isto para que me agradeça, mas para dizer
Muito Obigada por a ter conhecido, mesmo que não seja pessoalmente."


A senhora gostava que eu lhe falasse um pouco de mim, posso lhe dizer que nasci no dia 22 de Março de 1992, moro numa aldeia, que pertence a uma pequena cidade chamada Vale de Cambra, estudo na escola secundária de Vale de Cambra, estou a tirar o curso científico - humanistico de Artes Visuais ( este ano lectivo é o 1º ano em que a escola adere ao curso). Ainda não sei o que quero ser no futuro, mas tenho a certeza que quer o que seja tem que ter haver com a área que estudo, já que a minha segunda paixão é desenhar, pintar..., digo segunda paixão porque a primeira são as pessoas, mas também gosto de ouvir música, ver TV, escrever e ler (o meu livro preferido até agora foi " O amor nos tempos de cólera" de Gabriel García Márquez). Um enorme beijo e espero que nós continuaremos a partilhar assuntos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Sensibilidade

O que tem a ver a luta pelos direitos das pessoas com deficiência com a luta pela defesa da vida animal? Foi esta a primeira pergunta que me veio à mente ao receber o convite para escrever esta coluna (artigo de estréia em coluna no jornal do Instituo de Valorização à Vida Animal – IVVA – de Campinas, em 2007). E a resposta veio de imediato: a sensibilidade.
Num mundo cada vez mais coisificado, descartável e imediatista, resta-nos muito pouco tempo – e oportunidade – para nos dedicarmos às coisas simples, aparentemente sem importância capital, mas que alimentam nossa alma, pois estão inseridas no patamar da emoção, da delicadeza, do sutil. Enfim, da sensibilidade. E é aí que encaixo o contato com os animais.
Este é o discurso que faço como atual presidente – e uma das fundadoras – do Centro de Vida Independente de Campinas (CVI-Campinas), uma organização não-governamental de e para pessoas com deficiência. Mas, como pessoa e que, ainda por cima, tem uma deficiência (sou portadora de nanismo em conseqüência de má formação óssea congênita), o discurso é outro (porém não diferente do que afirmei acima).
Os animais, em especial os domésticos, por estarem mais perto de nós, podem ser veículos que nos levam a ter contato com emoções escondidas lá no âmago de nosso ser. Emoções impedidas de serem expressas a outro ser humano, por motivos que, talvez, nem Freud explique (que sei eu da psicanálise?).
Melhor do que ficar buscando palavras para dizer o indizível, deixo aqui com vocês um poema que escrevi aos 22 anos, quando morreu um de meus cachorros. A tristeza transbordou em palavras que hoje, 28 depois (e pela primeira vez), divido com vocês.

Morreu meu cachorro
Morreu uma presença
Para alguém que está só
Morreu o carinho
Para alguém que é carente
Morreu o sensível
Para alguém que é racional
Morreu a entrega
Para alguém que se guarda
Morreu a inocência
Para alguém que está armado
Morreu o espontâneo
Para alguém que se vigia
Morreu tanta coisa... e morreu apenas meu cachorro!
(Santos, 8/10/1978)


Alguns dos meus animais de estimação atuais (2009)

Esta é a Ítaca, a primogênita, de 13 anos (gata vira-lata, branca com manchas pretas)

Esta é a Pandora (cachorra vira-lata, porte médio com peito, patas e ponta do rabo brancos)



Esta é a Frida - de Frida Khalo (cachorra vira-lata, porte médio, preta com patas e focinho marrons)






quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Encarando a diversidade

Meu filho me pediu uma boneca

Texto de Denise Batista



Há uns dois meses meu filho de sete anos me pediu uma boneca. Dividida entre a intelectualidade dos estudos acadêmicos e os valores que a nossa "reaça" sociedade demonstra nas questões de gênero, dei a boneca," bancando" um barulho enorme por parte da família, colegas de trabalho, ex-marido e afins. Sem contar com a censura silenciosa de alguns, revelada por olhares ou gestos. É claro que recebi apoio e solidariedade. Mas o oposto foi muito mais pesado. Confesso que compreendo. Por parte de alguns mais, por parte de outros, menos. Mas respeito.
O meu desconforto foi muito mais em relação a mim mesma do que às posturas percebidas, públicas ou anônimas, verdadeiras ou educadas. Foi duro encarar minha insegurança em assumir DE FATO uma posição em relação às minorias sociais. Foi esta imagem, refletida no espelho das relações familiares que meu filho e sua boneca me obrigaram a olhar. Tive que sustentar uma postura, na prática, que há muito considerava como minha. Em teoria. Só descobri isto quando foi com um filho meu.
Aqui faço um parêntese: enquanto eu me torcia e retorcia constrangida, fazendo como o anão de jardim "cara de paisagem", meu filho não estava nem aí para os olhares e comentários sobre meninos e bonecas e exibia orgulhoso a sua gorducha bailarina, penteando os seus cabelos, trocando as suas roupas, mudando o seu penteado, entre extasiado e maravilhado com as possibilidades daquele "ser" de 20 e poucos centímetros e puro látex, para onde ia: no meu trabalho, no Mestrado, pelas ruas, na casa do avô, do pai...lugares públicos ou privados para este menino não dizam nada! A cada um que afirmava que boneca não era coisa de "macho", ele perguntava candidamente: por quê?
A boneca para o meu filho foi um Lego às avessas: montava, desmontava, descobria as calcinhas (olha mamãe a calcinha dela!) maquiava, lavava, alimentava... Confesso: quando ninguém estava olhando, brincava junto com ele e me divertia à beça, me sentindo criança de novo, relembrando o prazer de simplesmente brincar!
Enquanto isso, na vida real as opiniões se dividiam entre as seguintes opções:
OPÇÃO A: Não é nada demais, é só uma fase, (os conservadores, mal disfarçando o seu mal-estar psicologizando a "coisa")
OPÇÃO B: Ele está descobrindo a sexualidade, (os moderados)
OPÇÃO C: Ele esta aprendendo a cuidar dos filhos. Por que, homem não pode cuidar dos filhos, não é? (os progressistas-liberais de extrema esquerda intelectuais, dentre eles, minha querida "profdoc" Cristina Novikoff, um bálsamo na minha vida)
OPÇÃO D: Ele está querendo chamar a atenção em protesto por tudo que passou nestes últimos tempos (os contemporizadores sociologizando a mesma "coisa")
OPÇÃO E: Este menino vai é ser "viado" mesmo! (muitos, em off, é claro!)
OPÇÃO D: Nenhuma das anteriores (mas esta opção não é aceita na pedagogização da "coisa")
E eu ali, realizando uma pesquisa disfarçada sobre o assunto, coletando os dados, tratando-os e analisando os resultados!
Mentalmente, catalogava as opiniões. Torturava-me a possibilidade entre assumir uma atitude "firme" com meu filho para não ser julgada e execrada, ou seja, aceita pelos meus pares, ou ainda pior, sucumbir num mar de disfarces, meias-mentiras, mentiras inteiras, hipocrisias...
Optei pela lealdade aos meus princípios. É neles que está o amor incondicional ao ser humano e o respeito às diferenças, que só se consolidam se você tiver um compromisso real com a verdade. A sua verdade. Possibilitando àquilo que é estranho, ser familiar. Esta postura é uma daquelas que, quando a gente "bota a cara" sabe, e leva muita, mas muita porrada (não é Aninha?).
Meu filho é um ser humano. Pode ser diferente ou não no sentido convencional das opções sexuais. Mas isto não é importante. É apenas uma categoria de análise. Logo, não posso abrir mão dos meus princípios, pois eles constituem a minha identidade. Mantenho-me fiel a eles.
Bem seja o que for que representa a boneca para o meu filho, o fato é que ele está feliz da vida com o seu brinquedo novo e está me pedindo outra...
O fundamental, importante e imprescindível é o amor que sinto por este mini-humano e a admiração profunda que sinto ao vê-lo cuidar tão amorosamente do irmão menor, pela sensibilidade em perceber só de olhar meu rosto, o meu estado de ânimo, mesmo se tento disfarçar (e me alertar!), pela preocupação com a o coletivo, demonstrada nas pequenas atitudes cotidianas, como não jogar papel de bala no chão ou recolher as garrafas pets que meu pai insiste em atirar no seu quintal; em demonstrar bom caráter ao não contar mentiras muito punks (aquelas que sacaneiam alguém ferindo seus sentimentos), pela comoção sincera quando vê um desvalido, pela alegria com que admira a beleza de uma florzinha safada no jardim da minha mãe e colhê-la e colocar num copo me oferecendo; ao adorar incensos e gostar de livros, não com a devoção que eu gostaria, mas ok, e ao profundo amor que devota à sua Bolinha.
Me emociono ao vê-lo dormir e me assusto com a rapidez com que está tendo que amadurecer, pois a vida não tem sido fácil para ele.
Sendo assim, é muito fácil ser mãe deste ser humano de sete anos que me chama de mamãe. E se ele for gay, lésbica, hetero, bi, drag, transformista ou desejar uma cirurgia de mudança de sexo, tudo bem. Mesmo. O importante é que seja qual for o caminho escolhido, que seja pautado pelos princípios humanitários. Aqueles que fazem a gente ser decente e não nos torna indiferentes às misérias do mundo. E de quebra, que ame o seu próximo, respeitando a dignidade alheia. E que sonhe sempre com um mundo melhor, como antídoto para afastar o cinismo que ronda o cotidiano da perversidade.
Antônio, eu te amo meu filho. Por tudo. Mas principalmente por me fazer olhar, de forma corajosa para dentro de mim mesma.

Com amor,

Mamãe


FONTE: http://denisezinha.blogspot.com/2009/01/meu-filho-me-pediu-uma-boneca_03.html e http://denisezinha.blogspot.com/2009/01/meu-filho-me-pediu-uma-boneca_03.html

sábado, 10 de janeiro de 2009

A magia do sono



















A pessoa que dorme está inteiramente só. Quando o homem dorme, o seu rosto se desarma de todas as tramas, de todos os desgostos. E ela se debruça sobre a face do amado e descobre que eram simples palavras todas as valentias que ele vinha lhe dizendo ou dando a entender. Quando a gente se parece menos com os mortos é quando está dormindo. Quanto mais pobre, mais comovente o ser humano quando dorme. No sono, as pessoas boas e confiantes ficam desarrumadas. A mais leve carícia de sua mão sobre o corpo da amada que dorme poderá quebrar a solidão do sono e a tranqüilidade da carne já não seria completa. Contente-se em enternecer-se sem tocá-la. Mas, se for preciso despertá-la, que seja com ruídos aparentemente casuais.
Ah, que intenso ciúmes do passado e do futuro sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu e só você a verá assim tão bela!

(Texto de Antonio Maria, in Brasileiro, Profissão Esperança. Imagem: Moça Dormindo, pintura digital de João Werner (in www.joaowerner.com.br/.../ nus/moca_dormindo.htm))

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Novo ano - 2009


Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial! Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra a mágica da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente.

Carlos Drummond de Andrade

(Frase retirada do blog Assim como Você - http://assimcomovoce.folha.blog.uol.com.br/)


Descrição da foto: início de um eclipse lunar, em que apenas um pequeno pedaço da Lua, em sua parte lateral superior, está coberto por uma sombra.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Bate-papo a cerca da felicidade

Ei você! Dá para entender quando eu digo que ter coragem não quer dizer não ter medo? E se eu disser que dá para a gente ser independente mesmo precisando das outras pessoas, isso é compreensível para você? Se essas aparentes contradições não lhe assustam, então você consegue entender que um projeto de vida feliz inclui, necessariamente, o sofrimento, não?
Quando estamos para chegar a esse mundo, muito provavelmente recebemos um script. Mas é apenas um ponto de partida. Tal script pode ser incorporado ou renegado no decorrer da vida. Sendo assim, alguns recebem o script intitulado "Tenho de so-frer". Outros, o oposto: "Tenho de ser feliz". E entre esses dois extremos, há uma enorme variação de scripts, como "Tô nem aí com o mundo", "Minha hora há de chegar", "Primeiro eu, depois eu e, em seguida, eu", "Tô esperando acontecer", "Quando der eu vou", entre inúmeros outros. Esses scripts vagueiam numa espécie de limbo existencial, entre o ser ou não ser feliz. Às vezes se é, outras não e qualquer um desses estados (feliz ou infeliz) permanecem por muito pouco tempo.
Bem, mas antes que você durma com esse meu "papo de aranha", voltemos ao ponto inicial dessa nossa conversa: os scripts que nos conduzem, num primeiro momento, à felicidade ou infelicidade. O que eu quero dizer é que ninguém está condenado a nada. Nem mesmo a não estar condenado a nada, se é que você me entende... E como essa vida é muito doida, maravilhosa e surpreendente, o fato de incorporarmos o script "Tenho de sofrer" é justamente o que trará uma suposta felicidade. Está confuso?
Tenho para mim que incorporei o script "Tenho de ser feliz" e, como já disse, isso não me poupou (e continua não me poupando) de nenhum sofrimento. Mas sempre tento contornar, andar em volta, perscrutar caminhos alternativos, buscando a toca em que está escondida a tal felicidade a que me propus (ou que me propuseram, no caso de haver um ser superior que reja nossos destinos), lá no início de tudo, antes de sermos pessoas. E, à medida em que cumpro essa meta – ou o script –, sinto-me feliz, em estado de pleno regozijo. É um momento mágico, único e acalentador, que aquece meu coração por muito tempo, dando-me forças para enfrentar os próximos sofrimentos (que virão, inexoravelmente, eles virão, sempre vêem...).
Pois bem, seguindo esse mesmo raciocínio, eu lhe digo que aquele que optou (será que pôde optar? Será que lhe foi imposto? Espero poder descobrir isso um dia, nem que seja na Eternidade...) pelo script "Tenho de sofrer" sente o mesmo regozijo ao conseguir cumpri-lo. Assim, existe dentro deste ser duas forças opostas, de igual intensidade: ele tem de sofrer, no entanto, sente-se extremamente feliz no sofrimento.
Aí pira, né?

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Provocações na íntegra

Deixo aqui, a quem possa interessar, a íntegra do texto do programa Provocações do qual participei, com as respostas "editadas" (pra não cansar...).
Na verdade, as resposta são uma reedição, pois não me lembro exatamente o que respondi. Mas como fui absolutamente sincera, não devem estar muito diferentes do que eu disse no programa.



“Provocações!”... Outra vez.

No rodapé dos e-mails da nossa convidada, há uma frase de Nietzsche: “Aqueles que foram vistos dançando foram julgados loucos pelos que não podiam escutar a música”. Isto é, pelos surdos. Ou, como se diz, pelas pessoas com deficiência auditiva (cuidado com as denominações populares nesse campo!)... Nossa convidada não é uma pessoa com deficiência auditiva. É uma pessoa portadora de nanismo, com má formação óssea congênita (é assim que se fala!). Mesmo assim, ela tem uma folha corrida invejável nas artes, no teatro e no jornalismo cultural de Campinas, onde mora. E ainda é vice-presidente de uma ONG que briga pelos direitos das pessoas como ela. Ela é Katia Fonseca!



Abujamra – Katia Fonseca! Jornalista com nanismo, vice-presidente de ONG com nanismo. Pessoa com nanismo ou anã. Como você prefere ser chamada. E por quê?
Eu – Depende de quem chama e para o quê chama... Se estivermos entre amigos, pode ser qualquer coisa. Se for uma situação mais formal, ou uma situação pública, ou nos meios de comunicação, tem de ser "pessoa com nanismo". Anã carrega um estigma de palhaça, que vem dos anões de circo. Quando se fala com a massa, é importante o bom uso das palavras. Na verdade, o melhor mesmo seria me defiinir como jornalista...

“Dor e Delícia”, está escrito no seu blog. Como você transita entre essas duas coisas?
Como qualquer pessoa...

Estudou piano antes de se alfabetizar. Como foi isso?
Minha mãe era professora de música e eu, antes de nascer, já escutava o som do piano. Aí, ainda bem criança, comecei a brincar com o piano. Como minha mãe era muito rígida, não queria que eu tocasse de ouvido. Então, ela contratou uma professora para me ensinar. Isso numa idade em que eu ainda não tinha ido pra escola, aos 4 ou 5 anos.

Continua tocando?
Não, só brinco no piano...

Existem pianos adaptados para as pessoas com nanismo?
Não, acho que não. Naquela época muito menos. Mas acho que seria possível. Assim como, hoje, fazem a elevação dos pedais dos carros (eu dirijo), acho que também se pode fazer a elevação dos pedais dos pianos.

Estudou teatro nove meses com... Antunes Filho!... Por que largou?
Não larguei, ele me largou... Eu era muito indisciplinada. Fiquei 9 meses trabalhando com ele na montagem de uma peça chamada Rosa de Cabriúna. Mas depois ele me mandou embora. Acho que por causa da minha indisciplina.

Anos 80. Como é que uma redatora de manuais de informática – você – encenou uma telepeça, aqui mesmo, na TV Cultura?
Eu era vizinha de um ator, o Sérgio Roperto, e ele sabia da minha paixão pelo teatro. Eu tinha acabado de sair do Antunes. Então, ele me convidou. Era um teleteatro (A Mão Parda) dirigido pelo Ademar Guerra em que eu interpretava uma mãe-de-santo. Foi maravilhoso!

Diz aqui que você atuou como atriz fora do Brasil. Onde? Como?
Apresentei uma versão pocket do meu espetáculo Lautrec em Lugano, na Suíça, em 2005, a convite do Teatro Delle Radici, onde eu havia participado de um laboratório teatral nove anos antes.

Quantas pessoas com deficiência você conhece com a infância, a educação, a vida artística e a vida profissional iguais à sua?
Poucas, muito poucas...

Pode-se dizer que, num país com 27 milhões de pessoas deficientes, você é uma das poucas que se deram bem?
Com certeza. É por isso que eu me engajei na causa de defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Temos que trazê-las para o lugar de onde elas nunca deveriam ter saído: o seio da sociedade.

Como é ser uma pessoa deficiente?
Eu não sei como é ser outra coisa. Não sei como é não ser deficiente...

Alguma vez, diante do espelho, você perguntou: “Por que eu?”.
Várias...

E o que ele te respondeu?
Porque eu podia, porque eu agüentaria...

É difícil, não é?
É, temos que matar um leão por dia.

Repórter do caderno de Cultura do Correio Popular de Campinas. Por que trocou pela editoria de Opinião?
Não foi uma opção, foi um trato com a empresa. No caderno de Cultura eu era repórter. Agora, no Opinião, sou editora. O salário é um pouco melhor.

O que faz o editor de Opinião?
Seleciona as colaborações enviadas pelos leitores (cartas e artigos).

Katia Fonseca: o que você tem a ver com ninguém menos que... Toulouse-Lautrec?
Muita coisa. Desde o fato de nós dois termos a mesma deficiência (nanismo) até a forma como ele enxergava a sociedade e sua arte. Ele foi um dos primeiros que jogou luz sobre os marginalizados da sociedade. Por meio dele, putas, mendigos e dançarinas foram parar dentro dos salões de arte...

Qual o grande equívoco que as pessoas cometem ao falar de você?
Dizer que sou boazinha, que sou maravilhosa etc. Eu sou o que sou e ninguém sabe como é antes de me conhecer. Qualquer expectativa que elas tenham antes de me conhecer, é um equívoco.

Vice-presidente da ONG Centro de Vida Independente de Campinas. Com que dinheiro? Você mantém essa ONG?
Sim, eu e o pequeno grupo que a integra.


Alguma coisa perturbadora lhe dá prazer?
Sim... me embriagar, por exemplo.

“Sou contra o apartheid literário das pessoas deficientes”. A frase é sua. Apartheid literário! Existe isso?
A frase não é minha, foi criada por um grupo de cegos que luta pelo livro acessível, em formato digital, para que possa ser ouvido.


Qual grande obra literária você corrigiria sem a menor cerimônia?
Obra literária?!?!?!?!?!?!?

É... Paulo Coelho, por exemplo.
E Paulo Coelho é obra literária?

Leituras indispensáveis segundo você. Quais são?
Lembro de uma: Cem Anos de Solidão, do García Marques.


A ordem ou o caos?
O caos, sem dúvida.

O que não fez e gostaria de ter feito?
Apresentar um telejornal.

E o que fez e gostaria de não ter feito?
Brigado muito com a minha mãe.

Costuma arrepender-se?
Sim, muito, o tempo todo.

Fez algo que jamais revelará a ninguém?
Sim.

O quê?
Não vou contar...

Katia Fonseca, uma pergunta muito simples: o que é a vida?
O que é a vida?!?!?!?! Sei lá... a vida é... ir vivendo, ir fazendo e ir vendo onde isso vai dar.

Morrer é terrível?
Não. Como dizia Maiakóvsky: "Morrer não é difícil. Difícil é a vida e seu ofício".

Como gostaria de morrer?
Ah, não sei... de susto!

Para onde pensa que vai após a morte?
Pra qualquer lugar. Acho que tudo é possível: não ir pra lugar nenhum, voltar pra cá, ir pro céu, pro inferno...

Agora, olha para aquela câmera e diga qualquer coisa que você queira. Esse é o programa que dá total liberdade pra você dizer o que quiser.
Eu vou me servir das palavras de Torquato Neto (poeta da Tropicália): "Quando eu nasci, um anjo torto veio ler a minha mão. Não era um anjo barroco, era um anjo muito louco, com asas de avião. E eis que o anjo me disse, apertando a minha mão, com um sorriso entre dentes: 'Vai, bicho, desafinar o coro dos contentes!'".

Uau!!!

Gente, estou superfeliz com o retorno de minha entrevista ao programa Provocações. Bati o recorde de comentários aqui no blog, vocês viram?


O meu obrigadíssima a todos(as), de coração.


Além dos comentários aqui no blog, também recebi muitas mensagens de incentivo e de carinho pelo meu e-mail. Aos poucos, vou colocando aqui no blog para dividir com vocês.


Por enquanto, fiquem com mais uma foto, que traduz minha felicidade e realização.

Descrição da foto: eu e Antonio Abujamra num abraço. Eu estou sentada e ele em pé, gesticulando. Nós dois estamos olhando para a câmera fotográfica.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Provocações... é sexta-feira!


Antonio AbujamraAlguma vez, diante do espelho, você perguntou: “Por que eu?”.

Veja minha resposta a essa e outras provocações do Abujamra no programa que vai ao ar nessa sexta-feira, dia 31/10, pela TV Cultura de São Paulo, às 22h10.
O programa será reprisado no dia 7/11, às 2h30 da madruga.
Também já está no ar a chamada do programa. Dê uma olhada em www.tvcultura.com.br/provocacoes/


Descrição da foto: eu e o ator Antonio Abujamra estamos sentados um em frente ao outro. Entre nós, uma mesa de vidro. Ele, um senhor grandalhão, calvo na parte superior da cabeça e com o cabelo amarrado num rabo-de-cavalo atrás; está com um casaco cor de vinho e um longo cachecol azul. Eu, uma jovem senhora, cabelos bem curtos. Ambos usamos óculos e estamos sorrindo.




quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Lautrec petit-à-petit (3)


Só tiveram direito à minha intimidade os que souberam ultrapassar o primeiro momento de rejeição ou os que puderam apreciar o meu humor. Se eu não fosse tão espirituoso, seria o último dos idiotas. Há quatro séculos que em minha família ninguém fazia nada! Máscaras, barbas postiças, chapéus, boás... brinco continuamente com tudo isso. Adoro máscaras do rosto e também do corpo.
Vamos, vamos, experimentem ser outra pessoa! Tirem suas máscaras! Sejam vocês mesmos com outra cara.
Magnifique!
As pessoas são horrorosas, mas a vida nos oferece possibilidades maravilhosas!


(Trecho da peça Lautrec, texto e atuação de Katia Fonseca)

Descrição da foto: Katia Fonseca interpreta o pintor francês Toulouse-Lautrec. Está com um chapéu-coco, colete prateado por cima de um macacão preto. Segura uma bengala e está faladno com a platéia.