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quarta-feira, 11 de abril de 2012

A arte de ser diferente - Meu encontro com o teatro por meio da deficiência

Descrição da imagem: cena da peça 'Lautrec' na qual estou com os braços abertos, levantados, olhando para o alto e sorrindo. Estou vestida com um colete prateado sobre um macacão preto, de mangas compridas.



“Os tipos médios, normais, passam despercebidos. Atravessam a multidão sem que nada aconteça a sua volta. Para viver, eles não precisam lutar, basta se inserir. Mas eu não, para garantir a minha singularidade, preciso estar sempre alerta, pronto para a luta.”

A frase acima - da peça Lautrec* - resume a essência do teatro que faço: a luta para manter a minha singularidade.

Defendo que nós, pessoas diferentes do padrão estético vigente, se decidirmos nos expor, que isso seja feito da maneira mais consciente possível, para que nossa imagem não seja manipulada pelo olhar do outro. Esta ideia me salvou! E conduz minha vida até hoje. Foi esta concepção que me levou a fazer teatro e a me apropriar de minha imagem.

As pessoas sem nenhuma deficiência aparente, podem optar por se manter ocultas, “passar despercebidas”. Podem, por outro lado, decidir se expor através da arte (teatro, dança, música etc.), ou através de um comportamento excêntrico etc. Todas as pessoas ditas “normais” têm essa opção. Mas no caso daqueles que carregam em si uma diferença, a exposição é compulsória, pois não passam desapercebidas – não lhes é dada essa opção. Caso queira passar desapercebida, a pessoa com deficiência precisará optar por um ocultamento radical, como, por exemplo, não sair nunca de casa.

Ao se expor, as pessoas diferenciadas do padrão, carregam em si uma série de preconceitos, frutos de mitos e estereótipos: “baixinhos são invocados”, “os cadeirantes são exemplo de superação”, “negro é pobre”, “o menino com Síndrome de Down é tarado”, “índio é preguiçoso”, “a menina autista é carinhosa”.

Ao mesmo tempo, tais pessoas tocam e transformam quem a vê – para o bem ou para o mal. Tenho dois bons exemplos, de fatos ocorridos comigo, que podem provar esse caráter de “personagem” da pessoa com deficiência.
1- Entrei num restaurante e, depois de me sentar à mesa, percebo um olhar fixo sobre mim de uma mulher grávida sentada na mesa ao lado. De repente, ele explode num choro convulsivo e é consolada pelos amigos e pelo marido que estão com ela. Ela vai melhorando, mas sempre que olha em minha direção, o choro aumenta.
2- Entrei num banco para negociar a compra de uma casa própria. A gerente me atende, muito simpática e começamos a fazer o negócio. Seis meses depois do negócio fechado, recebo um texto escrito pela gerente dizendo que o fato dela ter me conhecido mudou completamente a sua vida e que, agora, ela era uma pessoa muito diferente e extremamente feliz. Suas palavras foram: “Minha vida se divide entre antes de ter conhecido a Katia e depois de a ter conhecido”.

A partir do momento que essa dimensão teatral da minha pessoa tornou-se evidente para mim mesma, tive a necessidade de sistematizar, estudar, investigar e criar. Fui, então, rumo à arte teatral.

Em primeiro lugar, o teatro que faço é para mim mesma, para me transformar, para ser protagonista do meu viver. O teatro serve para que eu possa me inserir nas mais diversas situações que talvez a vida, por si só, não pudesse me possibilitar, mas que o teatro pode.

Antonin Artaud – o mestre do Teatro do Absurdo - diz: “Quando vivo, não me sinto viver. Mas quando represento, então sinto que existo (...)”. (“O Teatro de Serafim”, in Escritos de Antonin Artaud, da série “Rebeldes Malditos”, L&PM Editora, 1983).

O teatro possibilita que eu use, conscientemente, a minha fatalidade (a de ser diferente). Ela – a fatalidade – será um elemento de aproximação ou de distanciamento do espectador, conforme o que eu queira dizer ou demonstrar em determinada ação teatral.

A pergunta que faço é: onde, em mim, é exatamente igual ao espectador, apesar da diferença física? O que há em mim que atrai ou que repulsa o espectador? Até que ponto minha deformidade é só minha e até que ponto é a dele (espectador) também? As respostas a essas perguntas, entre outras, são os elementos do meu fazer teatral. Com esses elementos, eu vou criando situações, histórias e magias.

* O espetáculo Lautrec, baseado na vida e obra do pintor francês Toulouse Lautrec, foi encenado em 2005, com texto meu e direção de José Tonnezzi.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Dia Nacional de Luta e o direito ao trabalho



Descrição da imagem: na rua, o chão está pintado com o Símbolo Internacional de Acesso (desenho estilizado de uma pessoa numa cadeira de roda em branco com fundo azul) e várias pessoas andam sobre ele.


Por Vinícius Garcia


As pessoas com deficiência – aquelas com diferentes níveis de limitações físicas, sensoriais ou cognitivas – escolheram o dia 21 de setembro como o seu Dia Nacional de Luta pela Cidadania. O objetivo de marcar uma data no calendário para lembrar a todos que existimos e somos cidadãos – com direitos e deveres – é manifestar, todos os anos, que precisamos avançar na construção de uma sociedade inclusiva, que entenda as “diferenças” como parte da diversidade humana.

No passado não muito distante, as crianças que nasciam com algum tipo de limitação e as pessoas que adquiriam uma deficiência estavam condenadas a viver à margem da sociedade, limitando-se ao convívio e apoio familiar, vistas como incapazes, até mesmo como um “fardo” para suas famílias. Mal eram ouvidas, não tinham vontade própria e a sociedade, no máximo, lhes concedia benevolência e assistencialismo... pobres coitados!

Era “natural” que alguém nessas condições – com limitações das mais variadas – não precisasse ir à escola, frequentando, no máximo, instituições especializadas. Trabalhar então, nem pensar. Quase que automaticamente, quando alguém adquiria uma deficiência em função de um acidente de carro ou por arma de fogo, por exemplo, esta pessoa “se aposentava por invalidez”. Em função disso, nos dias atuais, parte das dificuldades das pessoas com deficiência em trabalhar formalmente se deve à baixa escolaridade média deste segmento e aos problemas da legislação trabalhista, pois só pode retornar ao mercado quem escolher abrir mão da aposentadoria.

Mas não é só isso. Neste Dia Nacional de Luta é preciso reafirmar que a maior parte das dificuldades das pessoas com deficiência está na sociedade, não nas limitações físicas, sensoriais ou cognitivas de cada um. Quando nos aproximarmos de um município verdadeiramente acessível – nos meios de transporte, nas ruas, calçadas e meios de comunicação -, quando tivermos serviços públicos verdadeiramente inclusivos na educação, saúde e outras áreas, quando os estereótipos e mitos ainda associados às pessoas com deficiência forem desfeitos, aí, sim, o direito legítimo e fundamental ao trabalho será respeitado para as pessoas com deficiência.

Em Campinas, temos avançado nesse processo e a organização social e política das próprias pessoas com deficiência contribui muito nesse sentido. Cada vez mais os gestores públicos percebem que não é possível esconder esse “problema”, ignorar as pessoas com deficiência. Mas ainda falta muito. Estimativas recentes revelam que apenas entre 10% e 15% das pessoas com deficiência, em idade ativa, estão trabalhando formalmente.

Portanto, precisamos continuar atuando na fiscalização da chamada “Lei de Cotas”, mas também, e principalmente, avançar na construção da sociedade inclusiva, eliminando barreiras físicas e de atitude que impedem o pleno exercício da cidadania pelas pessoas com deficiência.

Vinicius Garcia é economista, diretor da ONG CVI/Campinas e doutorando em Economia Social e do Trabalho na Unicamp

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Exclusão às avessas: quem não tem deficiência não entra

Hoje, deparei com um release que diz o seguinte: " (...) estarão abertas as inscrições para os cursos gratuitos de Informática Básica, Alimente-se Bem e Telemarketing, destinados à deficientes visuais e físicos" (sic)*.

Chocada com o que acreditei ser um exemplo de exclusão inadmissível em tempos de inclusão social, fui procurar mais informações e entender do que se tratava.

Como dois desses cursos – Informática Básica e Telemarketing – estão sendo oferecidos pelo Senai de Americana (interior de SP), quem conversou comigo foi o Vinícius Martin, coordenador dos cursos técnicos daquela conceituada escola.Ele me explicou que o curso Informática Básica vai ensinar como usar as ferramentas (softwares) destinadas à leitura de tela, criadas para possibilitar o uso do computador por pessoas cegas. Portanto, o curso destina-se àqueles que necessitam usar essas ferramentas - os cegos.

Achei razoavelmente aceitável a explicação. Mas acredito que o release deveria deixar isso claro, informando algo do tipo: "Estão abertas inscrições para o curso de Informática Básica que vai habilitar o aluno ao uso de ferramentas de leitores de telas, usados por pessoas com deficiência visual". Dessa forma, inclusive, poderia surgir o interesse de alguém, que não fosse cego, de querer fazer o curso apenas para conhecer as ferramentas. Mas, tudo bem, isso foi um problema de redação e o Vinícius me explicou que a responsabilidade pelo release era da Secretaria de Promoção Social da prefeitura de Americana (atenção, pessoal da prefeitura de Americana!).

Sobre o segundo curso, Telemarketing, o que entendi pela explicação do Vinícius é que, até agora, o Senai de Americana ainda não oferecia esse curso, que passará a fazer parte da grade somente a partir desta primeira turma de pessoas com deficiência visual que aprenderá a Informática Básica. "Como já temos muitos inscritos – todos com deficiência visual – e temos uma limitação de espaço, resolvemos oferecer esse segundo curso apenas para os que já estão inscritos do primeiro curso", alegou Vinícius.

Sinceramente, continuo achando isso um pouco estranho e completamente na contramão da história de conquistas dos direitos da pessoa com deficiência, que repudia a segregação.

O estranho é que esse curso de Telemarketing está aberto, também, a pessoas com deficiência física – que, a priori, não fizeram o primeiro curso, o de Informática Básica. Pois bem, se outras pessoas, além dos cegos, podem ser inseridas nessa turma, por que não também outros sem deficiência ou com outras deficiências (surdos, autistas, pessoas com síndrome de Down etc.)?

Resumo da ópera: na era da inclusão, quando acabamos de conquistar uma de nossas maiores vitórias, que é a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, da ONU – da qual o Brasil não apenas é signatário como também deu status de lei à tal Convenção – não se pode mais admitir qualquer tipo de isolamento, segregacionismo ou criação de guetos para as pessoas com deficiência.

No caso em pauta, se poderia simplesmente informar: "Senai oferece curso para aprendizado de softwares destinados a cegos". Quem quisesse fazer o curso (cegos ou não) que fizesse! E, em seguida, deveria ser aberto o curso de Telemarketing PARA TODOS. No máximo, se poderia reservar uma porcentagem das vagas de tal curso para as pessoas com deficiência visual de tenham feito o primeiro curso – de aprendizado dos softwares – que, por ventura, tivessem mais dificuldade de dar continuidade aos estudos profissionalizantes.

Portanto, caro Vinícius, fica aqui minha humilde sugestão para que o Senai de Americana entre, de fato, na nossa era da inclusão total e irrestrita (que, aliás, já chega tarde demais...).

* A saber: encontra-se dois erros nesta frase "à deficientes físicos": 1- não tem crase;2- a terminologia correta é "a pessoas com deficiência física"

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Home office - O primeiro dia


Descrição da imagem: um cachorrão, com as patas exageradamente compridas, dorme plácida e relaxadamente em uma poltrona. (Fonte: Google imagens)

1º DIA
Fiquei tão encantada de estar trabalhando na minha casa*, no meu quarto, que não saí da frente do computador nem pra comer. A sensação de conforto e segurança é maravilhosa!
As principais vantagens são:
1- ficar descalça o dia todo;
2- colocar aquela musiquinha gostosa – que tem tudo a ver com você - de fundo, embalando o trabalho;
3- poder, de vez em quando, olhar de soslaio os cerca de 20 quadros (telas, fotos, desenhos) que tenho pendurados pela parede do meu quarto;
4- ver minha gata e minha cachorra estendidas na cama, dormindo o sono dos justos e inocentes, uma imagem que sempre me enternece;
5- sessão banheiro:
5.1 - estar a 18 passos (literalmente) do banheiro;
5.2 - ter o papel higiênico que eu gosto;
5.3 - sentir aquele perfume no ar escolhido por mim;
5.4 - higiene, limpeza e arrumação por conta das mãos mágicas da Maria (minha assistente pessoal);
5.5 - ter todas as adaptações que eu necessito (barra de apoio, banquinho)
6- … e já que estamos na seara da intimidade, é preciso deixar registrado: que delícia poder vestir aquela calcinha um pouco mais antiga, que não aperta da cintura!
As desvantagens são:
1- …
Desculpem, mas por ora não consigo enumerar nenhuma! Mas, afinal, estamos apenas no primeiro dia... Vamos ver o que o futuro nos reserva!
Até amanhã!

* Por um acordo com a empresa jornalística da qual sou funcionária há quase 20 anos (entrei em 1991), a partir de hoje passei a trabalhar na minha casa e mudei de função: vou trabalhar com a web, alimentando de notícias o site da empresa, Cosmo on Line. Esta era uma reivindicação minha já de há algum tempo, pois tem sido cada vez mais difícil - por causa de minha deficiência, aliada à idade e péssimo condicionamento físico (odeio exercícios!) - me locomover e sair de casa com frequência, assim como passar cerca de 8 horas fora de casa diariamente.
O objetivo da criação deste "Diário de bordo" é registrar o dia a dia desta experiência de trabalho em casa (home office) para, daqui há algum tempo, fazer um balanço das perdas e ganhos.
Está dada a largada!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Chuvas de descaso - Em defesa da vida

Descrição da imagem: Bombeiro e alguns moradores descem um morro, andando contra uma enxurrada que deixa a água na altura acima dos joelhos.

Deixo, hoje, com vocês, um triste e emocionante depoimento de uma amiga, que faz parte de uma lista na internet sobre o Movimento de Vida Independente, da qual participo. Ela, Solane Carvalho, tem sequela de poliomelite, é cadeirante e militante me defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Mas aqui, neste depoimento isceral, ela é apenas uma cidadã indignada e consternada com a tragédia que assolou, recentemente, o estado do Rio, sobretudo Niterói, cidade em mora. É um depoimento em defesa da vida e da dignidade humana. Com a palavra, Solane!


Por aqui (em Niterói) estamos mesmo lutando para vencer os incêndios, a chuva, as ondas (do mar), a falta de luz e comunicação... De fato, a situação tem se mostrado calamitosa – e triste principalmente.
A pulverização da tragédia no município (
de Niterói) é assustadora na exata medida da ausência de efetivas políticas públicas voltadas para a prevenção e respeito à vida ! Andando pelo meu bairro, encontro vizinhos consternados, o dono da banca de jornal, da quitanda, o motorista de táxi. “Lembra-se daquele senhor que trabalhava naquele prédio?” “E o entregador da farmácia sorridente? Onde estão essas pessoas e suas famílias? Essas e tantas centenas de outras pessoas se foram, vítimas de tudo, de todos, de nós mesmos, nosso silêncio, nossas ações e/ou omissões....
Quisera que estivéssemos diante apenas de uma fatalidade. Brigaríamos com os deuses e iríamos dormir blasfemando. Estamos no século 21 e tragédias em encostas de favelas não são obra da “malvada” natureza (um raio indomável, um ciclone, um terremoto, sequer a chuva), são frutos do desrespeito à vida e à dignidade humana, fruto do descaso. É óbvia e gritante a responsabilidade desses atores públicos.
O drama das famílias que tudo perderam tem feito parte cotidiana dos nossos dias. Ruas interditadas, bombeiros, meus vizinhos recolhem mantimentos nos corredores do prédio, catamos no armário nossas roupas pouco usadas, nossos sonhos também.... Aquela menina de 8 anos de idade, moradora da favela, órfã de todos, em sua sabedoria de criança comoveu o País ao ser entrevistada pela Fátima Bernardes (jornalista da Rede Globo) - e nos comoveu – ao afirmar que vai prosseguir, que tem muita vida pra viver. Vital esperança.
Katia, querida, tenho estado atenta aos noticiários da cidade em busca de informações sobre pessoas com deficiência vítimas desse último dilúvio. Soube, até agora, apenas de um rapaz que infelizmente, sem chance alguma, faleceu soterrado pela lama num morro próximo a minha casa. Segundo soube , ele tinha uma deficiência física e usava cadeira de rodas. Lembrei logo do rapaz do posto de gasolina, morador daquele morro, que, sempre sorridente, calibrava os pneus da minha cadeira de rodas...
Aqui em Niterói, um dos postos de recolhimento de mantimentos é o Clube Canto do Rio, localizado no Centro da cidade. Felizmente, o número de doações é tão expressivo que hoje, por exemplo, não era possível transitar de carro pela rua do Clube que se encontra totalmente congestionada de veículos que não param de chegar, trazendo donativos para as vítimas.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Maputo - O Brasil na FDLP

Descrição da imagem: grupo de pessoas que compõem a FDLP possa para foto de encerramento de sua assembleia geral. Na fileira da frente, estão as pessoas em cadeira de rodas (eu entre elas). São, ao todo, cerca de 30 pessoas.

Estive em Maputo, capital de Moçambique (África), no início de março para participar da reunião da Federação das Organizações de Pessoas com Deficiência dos Países de Língua Portuguesa (a FDLP). Fui como presidente do Conselho Nacional dos Centros de Vida Independente do Brasil (CVI-Brasil), entidade membro da FDLP.
Estavam presentes representantes de entidades oito países: Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Portugal e Brasil.
Os principais trabalhos desenvolvidos nesta assembleia da FDLP foram a reforma de seu estatuto e a eleição de sua nova diretoria, que vai vigorar durante os próximos quatro anos. Dividida em uma presidência e quatro vice-presidências, a atual diretoria tem seu principais cargos ocupados por Moçambique (presidência e primeira vice-presidência) e Brasil (segunda vice-presidência). Dentro dos próximos dois meses, deverão ser definidos os nomes das pessoas que representarão estes países.
Há muito trabalho pela frente, sobretudo nos países menos desenvolvidos. Mas a troca de experiência, a ajuda mútua e a rede de ações entre estes países vão garantir, tenho certeza, um futuro melhor às pessoas com deficiência que ainda continuam sendo relegadas e marginalizadas do seio da sociedade, lugar de onde nunca deveriam ter saído.
O presente ainda é sombrio, mas a consolidação da FDLP traz novas esperanças e luzes, mesmo que ainda pequenas, aos nossos irmãos e irmãs com deficiência dos países lusófonos. Para muitos deles(as), a luta está só começando, mas com muito brio e vontade de vencer.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Essa tal de inclusão...

Mesmo depois de tantos anos na lida do dia-a-dia, enfrentando situações adversas, em geral provocadas pelo estranhamento diante de minha deficiência física - mas não só! -, ainda fico perplexa quando deparo com certas hostilidades e negação explícita de meus direitos, sobretudo os mais comuns, como ao trabalho, ao lazer, ao estudo, entre outros. E fico a pensar: e a tal da inclusão social, tão falada em prosa em verso, será que existe mesmo?
Pois não é que, neste momento, do alto de meus 52 anos de idade, tenho enfrentado constrasngimentos e situações de estresse no meu trabalho por causa da minha deficiência? E isto está acontecendo despois de 18 anos trabalhando no mesmo lugar!!!!!
Vou tentar ser suscinta.
Há cerca de um ano, desisti de ir caminhando no trajeto que vai do local em que estaciono meu carro até minha sala de trabalho. O solo, neste trecho, é irregular e, ao andar tropegamente, apoiada em minha frágil bengalinha, caí uma três vezes. Então, resolvi usar minha cadeira de rodas neste trajeto. Para tanto, preciso de ajuda para tirar a cadeira do porta-malas, montá-la e empurrar-me até a sala (não "toco" minha cadeira sozinha, pois meus braços não alcançam as rodas). Esta ajuda estava sendo prestada de maneira informal. Ou seja, quem estivesse por ali, no pátio do estacionamento, acabava ajudando. Como, às vezes, demorava para aparecer alguém, comecei a pedir ajuda ao entrar pelo portão, pedindo que alguém fosse me esperar no local onde iria parar o carro. Eu sempre escolhia entre duas opções: acionar um dos vigilantes da empresa ou um dos motoristas.
Foi aí que a chefia do departamento do transporte resolveu "fechar o tempo", alegando que não seria obrigação deles prestar-me ajuda... Pra mim, diretamente, nunca foi dito nada. Eu apenas escutava o "zum-zum-zum", ora de um porteiro (a quem eu pedia para ligar no ramal do transporte avisando que eu havia chegado), ora de um patrulheiro, ora dos próprios motoristas.
Um dia, resolvi acabar com esse mal-estar e foi então que deparei com uma série de situações que, sinceramente, acreditei que nunca mais iria enfrentar (sobretudo em época da já famosa inclusão social): bati boca com o encarregado do transporte e ouvi queixas dos vigilantes, um empurrando pro outro o "favor" de me ajudar.
Rodei a baiana, assumindo a minha porção "militante do movimento em defesa da pessoa com deficiência" e mandei e-mail para todos que considerei co-responsáveis pelo meu direito ao trabalho com dignidade, a saber: departamento jurídico, departamento pessoal (RH), equipe da Segurança do Trabalho e, claro, minha chefia direta e os próprios envolvidos departamentos de transporte e de vigilância da empresa. Defrontei-me com o silêncio total (ignorando-me premptoriamente) de todos a quantos mandei a tal mensagem de indignação e cobrança de providência. Deste "todos", salvaram-se dois: meu colega de editoria (que não gosta que eu me refira a ele como "chefe", mas é este o seu papel...) e meu diretor de redação (este, sim, o "chefe"). O primeiro conversou longamente comigo e, apesar de não concordarmos em tudo, ele me ouviu e me deu alento na solidão de minha indignação; o segundo me garantiu que acharia uma solução para o "problema".
A situação foi, em parte, resolvida. Ainda não estou plenamente satisfeita com a solução encontrada (uma secretária vai intermediar meu pedido de ajuda, antes de eu chegar na empresa, e verá quem poderá, naquele dia, fazer o "favor" de me ajudar).
Mas, em toda essa história, tem um detalhe importantíssimo que serve de reflexão a todos os envolvidos com a tal inclusão social: o encarregado do transporte, que começou toda essa "arenga", é pai de um garoto com deficiência. Nestes 8 anos de empresa, tive alguns momentos de conversa com esse funcionário (que é tão ou mais antigo que eu por lá...), ainda no tempo em que ele era motorista (antes de ser o encarregado). Como eu não ficava fazendo muitas perguntas (pois percebia um certo constrangimento dele em falar sobre o assunto), não sei detalhes sobre a deficiência do filho, não sei se é só física ou se também tem algum comprometimento intelectual. Sei apenas que o garoto usa cadeira de rodas, precisa de ajuda para se alimentar e frequenta (ou frequentava, ou deveria frequentar, não me lembro bem do relato) uma escola especial.
Narro todos esses fatos, em primeiro lugar, para desabafar; em segundo, como já disse, para deixar uma reflexão na busca de ações para alcançarmos, efetivamente, uma sociedade mais justa, adquirindo "olhos para ver" aspectos sutis da alma humana. E, finalmente, para dizer que, apesar da frustração e de todo incômodo que esta situação me causou (e ainda me causa), não vou desistir.
Àqueles que se incomodam com a minha existência, deixo um poeminha de Mário Quintana que me consola nos momentos de revolta e decepção. Ei-lo:


Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu, passarinho!
(Mario Quintana)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Provocações na íntegra

Deixo aqui, a quem possa interessar, a íntegra do texto do programa Provocações do qual participei, com as respostas "editadas" (pra não cansar...).
Na verdade, as resposta são uma reedição, pois não me lembro exatamente o que respondi. Mas como fui absolutamente sincera, não devem estar muito diferentes do que eu disse no programa.



“Provocações!”... Outra vez.

No rodapé dos e-mails da nossa convidada, há uma frase de Nietzsche: “Aqueles que foram vistos dançando foram julgados loucos pelos que não podiam escutar a música”. Isto é, pelos surdos. Ou, como se diz, pelas pessoas com deficiência auditiva (cuidado com as denominações populares nesse campo!)... Nossa convidada não é uma pessoa com deficiência auditiva. É uma pessoa portadora de nanismo, com má formação óssea congênita (é assim que se fala!). Mesmo assim, ela tem uma folha corrida invejável nas artes, no teatro e no jornalismo cultural de Campinas, onde mora. E ainda é vice-presidente de uma ONG que briga pelos direitos das pessoas como ela. Ela é Katia Fonseca!



Abujamra – Katia Fonseca! Jornalista com nanismo, vice-presidente de ONG com nanismo. Pessoa com nanismo ou anã. Como você prefere ser chamada. E por quê?
Eu – Depende de quem chama e para o quê chama... Se estivermos entre amigos, pode ser qualquer coisa. Se for uma situação mais formal, ou uma situação pública, ou nos meios de comunicação, tem de ser "pessoa com nanismo". Anã carrega um estigma de palhaça, que vem dos anões de circo. Quando se fala com a massa, é importante o bom uso das palavras. Na verdade, o melhor mesmo seria me defiinir como jornalista...

“Dor e Delícia”, está escrito no seu blog. Como você transita entre essas duas coisas?
Como qualquer pessoa...

Estudou piano antes de se alfabetizar. Como foi isso?
Minha mãe era professora de música e eu, antes de nascer, já escutava o som do piano. Aí, ainda bem criança, comecei a brincar com o piano. Como minha mãe era muito rígida, não queria que eu tocasse de ouvido. Então, ela contratou uma professora para me ensinar. Isso numa idade em que eu ainda não tinha ido pra escola, aos 4 ou 5 anos.

Continua tocando?
Não, só brinco no piano...

Existem pianos adaptados para as pessoas com nanismo?
Não, acho que não. Naquela época muito menos. Mas acho que seria possível. Assim como, hoje, fazem a elevação dos pedais dos carros (eu dirijo), acho que também se pode fazer a elevação dos pedais dos pianos.

Estudou teatro nove meses com... Antunes Filho!... Por que largou?
Não larguei, ele me largou... Eu era muito indisciplinada. Fiquei 9 meses trabalhando com ele na montagem de uma peça chamada Rosa de Cabriúna. Mas depois ele me mandou embora. Acho que por causa da minha indisciplina.

Anos 80. Como é que uma redatora de manuais de informática – você – encenou uma telepeça, aqui mesmo, na TV Cultura?
Eu era vizinha de um ator, o Sérgio Roperto, e ele sabia da minha paixão pelo teatro. Eu tinha acabado de sair do Antunes. Então, ele me convidou. Era um teleteatro (A Mão Parda) dirigido pelo Ademar Guerra em que eu interpretava uma mãe-de-santo. Foi maravilhoso!

Diz aqui que você atuou como atriz fora do Brasil. Onde? Como?
Apresentei uma versão pocket do meu espetáculo Lautrec em Lugano, na Suíça, em 2005, a convite do Teatro Delle Radici, onde eu havia participado de um laboratório teatral nove anos antes.

Quantas pessoas com deficiência você conhece com a infância, a educação, a vida artística e a vida profissional iguais à sua?
Poucas, muito poucas...

Pode-se dizer que, num país com 27 milhões de pessoas deficientes, você é uma das poucas que se deram bem?
Com certeza. É por isso que eu me engajei na causa de defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Temos que trazê-las para o lugar de onde elas nunca deveriam ter saído: o seio da sociedade.

Como é ser uma pessoa deficiente?
Eu não sei como é ser outra coisa. Não sei como é não ser deficiente...

Alguma vez, diante do espelho, você perguntou: “Por que eu?”.
Várias...

E o que ele te respondeu?
Porque eu podia, porque eu agüentaria...

É difícil, não é?
É, temos que matar um leão por dia.

Repórter do caderno de Cultura do Correio Popular de Campinas. Por que trocou pela editoria de Opinião?
Não foi uma opção, foi um trato com a empresa. No caderno de Cultura eu era repórter. Agora, no Opinião, sou editora. O salário é um pouco melhor.

O que faz o editor de Opinião?
Seleciona as colaborações enviadas pelos leitores (cartas e artigos).

Katia Fonseca: o que você tem a ver com ninguém menos que... Toulouse-Lautrec?
Muita coisa. Desde o fato de nós dois termos a mesma deficiência (nanismo) até a forma como ele enxergava a sociedade e sua arte. Ele foi um dos primeiros que jogou luz sobre os marginalizados da sociedade. Por meio dele, putas, mendigos e dançarinas foram parar dentro dos salões de arte...

Qual o grande equívoco que as pessoas cometem ao falar de você?
Dizer que sou boazinha, que sou maravilhosa etc. Eu sou o que sou e ninguém sabe como é antes de me conhecer. Qualquer expectativa que elas tenham antes de me conhecer, é um equívoco.

Vice-presidente da ONG Centro de Vida Independente de Campinas. Com que dinheiro? Você mantém essa ONG?
Sim, eu e o pequeno grupo que a integra.


Alguma coisa perturbadora lhe dá prazer?
Sim... me embriagar, por exemplo.

“Sou contra o apartheid literário das pessoas deficientes”. A frase é sua. Apartheid literário! Existe isso?
A frase não é minha, foi criada por um grupo de cegos que luta pelo livro acessível, em formato digital, para que possa ser ouvido.


Qual grande obra literária você corrigiria sem a menor cerimônia?
Obra literária?!?!?!?!?!?!?

É... Paulo Coelho, por exemplo.
E Paulo Coelho é obra literária?

Leituras indispensáveis segundo você. Quais são?
Lembro de uma: Cem Anos de Solidão, do García Marques.


A ordem ou o caos?
O caos, sem dúvida.

O que não fez e gostaria de ter feito?
Apresentar um telejornal.

E o que fez e gostaria de não ter feito?
Brigado muito com a minha mãe.

Costuma arrepender-se?
Sim, muito, o tempo todo.

Fez algo que jamais revelará a ninguém?
Sim.

O quê?
Não vou contar...

Katia Fonseca, uma pergunta muito simples: o que é a vida?
O que é a vida?!?!?!?! Sei lá... a vida é... ir vivendo, ir fazendo e ir vendo onde isso vai dar.

Morrer é terrível?
Não. Como dizia Maiakóvsky: "Morrer não é difícil. Difícil é a vida e seu ofício".

Como gostaria de morrer?
Ah, não sei... de susto!

Para onde pensa que vai após a morte?
Pra qualquer lugar. Acho que tudo é possível: não ir pra lugar nenhum, voltar pra cá, ir pro céu, pro inferno...

Agora, olha para aquela câmera e diga qualquer coisa que você queira. Esse é o programa que dá total liberdade pra você dizer o que quiser.
Eu vou me servir das palavras de Torquato Neto (poeta da Tropicália): "Quando eu nasci, um anjo torto veio ler a minha mão. Não era um anjo barroco, era um anjo muito louco, com asas de avião. E eis que o anjo me disse, apertando a minha mão, com um sorriso entre dentes: 'Vai, bicho, desafinar o coro dos contentes!'".

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Lautrec petit-à-petit (3)


Só tiveram direito à minha intimidade os que souberam ultrapassar o primeiro momento de rejeição ou os que puderam apreciar o meu humor. Se eu não fosse tão espirituoso, seria o último dos idiotas. Há quatro séculos que em minha família ninguém fazia nada! Máscaras, barbas postiças, chapéus, boás... brinco continuamente com tudo isso. Adoro máscaras do rosto e também do corpo.
Vamos, vamos, experimentem ser outra pessoa! Tirem suas máscaras! Sejam vocês mesmos com outra cara.
Magnifique!
As pessoas são horrorosas, mas a vida nos oferece possibilidades maravilhosas!


(Trecho da peça Lautrec, texto e atuação de Katia Fonseca)

Descrição da foto: Katia Fonseca interpreta o pintor francês Toulouse-Lautrec. Está com um chapéu-coco, colete prateado por cima de um macacão preto. Segura uma bengala e está faladno com a platéia.

sábado, 20 de setembro de 2008

Convite

Caríssimos

Tenho um grande orgulho de convidá-los para assistir à entrega do prêmio Helen Keller à minha pessoa, dia 23/9 (terça-feira), às 20h, na Câmara Municipal de Campinas (Av. Engenheiro Roberto Mange, 66 - Ponte Preta).
O prêmio é um projeto de lei instituído pelo vereador Zé Cunhado (PDT) e destina-se a valorizar a pessoa com deficiência que tenha destaque na cidade Campinas. A data de premiação é em referência ao Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, que se comemora todo 21 de setembro.
Getilmente oferecido por uma empresa parceira, haverá um coquetel após a cerimônia de premiação, no mesmo local, e eu ficaria muito feliz em poder brindar com vocês mais essa conquista, mais um reconhecimento da luta que venho travando, como membro do Centro de Vida Independente de Campinas (CVI-Campinas), pela quebra de preconceitos e mudança de paradigmas frente às questões que envolvem as pessoas com deficiência.
Aguardo vocês!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Luta? Que luta?

Neste momento em que se inaugura uma rampa para o acesso de pessoas com deficiência física na Prefeitura de Campinas (com bastante atraso, diga-se de passagem), eu não podia deixar passar a oportunidade para externar meu descontentamento com as ações oficiais em prol das pessoas com deficiência na cidade. Por oficial, estou denominando aquelas ações de iniciativa da Administração municipal, por meio de suas diversas secretarias, e as desenvolvidas pelo Conselho Municipal de Atenção à Pessoa com Deficiência. Ações apagadas, sem viço, sem garra e à moda da abertura política brasileira: “lenta e gradual”. Neste momento, também está acontecendo a Semana de Luta da Pessoa com Deficiência, em Campinas, que culminará com a celebração do Dia Nacional de Luta, comemorado em 21 de setembro. Quantos, em nossa cidade, sabiam disso? Vamos ver o “córum” que atingirão os eventos dessa semana e da manifestação que acontecerá na Lagoa do Taquaral, no dia 21, pela manhã. Estou torcendo para que tenham um público recorde e eu morda a minha língua.
São ações que não conseguem nem mesmo mobilizar o próprio segmento das pessoas com deficiência, o que dirá a população em geral, que continua a lidar com suas preocupações rotineiras sem serem sensibilizadas para a problemática das pessoas que vivem em situação de desvantagem quanto suas capacidades físicas, motoras, sensoriais ou intelectuais.
Querem mais um exemplo? Depois de anos de reivindicação, o movimento organizado das pessoas com deficiência em Campinas conseguiu que a Prefeitura criasse a Comissão Permanente de Acessibilidade (CPA), cujo principal objetivo seria a fiscalização da acessibilidade nos edifícios públicos e privados (além de muitas outras funções). Está funcionando? Não! E quando a tal comissão é cobrada, a justificativa recai sempre nos trâmites burocráticos e legais que se resumem na tão conhecida frase típica do funcionalismo público: “Ah, isso não é com a gente!”.
Outro exemplo é a atuação pífia do conselho supracitado, resumindo-se a intermináveis reuniões e pouquíssima ação. Nem eu, pessoa com deficiência física e atuante em movimentos organizados para a defesa de nossos direitos, fico sabendo o que esse conselho vem fazendo.